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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Draga

a boca medonha suga agressiva,
efeito de ralo atrativo,
chama ao seu humor as dignas
do lixo, não limpa, provoca estupor.
Confunde o joio do trigo e amarra
o todo em ardiloso fervor.
Suga, chupa o que há de detrito
mesmo no mais suave e incorruptível
amor. Engana, o que se quer enganar,
com chupões-ferroadas sem ferrões.
Exige do rio a areia, onde só há água
e entulha e embarreia a liquidez.
Talvez queira o que lhe é próprio.
Hipócrita suga o que não
haveria pra sugar, mas por elegância
(desastrada) a água faz de si brotar
a areia inóspita que ela deseja,
mas destino de draga é triste,
água que é água percebe que a areia
nela não existe, é o que a draga
procura e mais do que ser o que
ela chupa é o que sua boca dissemina
e a põe no seu lugar de ralo, de alicate
de unha, que é o que se costuma usar.
Que drague o que puder,
pra não ter mais o que sugar.

sábado, 12 de abril de 2008

Do Amor Dialético.


I
Você se cria líqüida
Pura ao me ver muda
Eu ao te ver movida
Em mim o nós aluda.
I
Eu em você sou vida
Em mim você é muda
Somos nós raiz florida
Síntese primavera aguda

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Do Amor Dialógico.

I
Você emparedada em você
Fala comigo, de perto me vê.
Discutimos, eu emparedado
em mim mesmo sou dado.
II
Eu, em mim, vejo você,
mas não nos vemos nós
Em você, você me vê
E juntos não temos nós.

quinta-feira, 20 de março de 2008

O Dom

Na mesa de madeira eu esperei o Dom. Primeiro, sentada na cadeira, com uma lágrima caindo: lágrima de saudade ou de fingimento. Lágrimas de atriz, fingidora, de verdade porém. Cansei-me de ficar na cadeira. E de lacrimejar não cansei, porque é engraçado. Subi a mesa. Escalei aquela mesa gigantesca, de madeira, com trabalhos artesanais nas bordas, mesa de oito lugares, ou doze, ou até mais. Não me lembro. Passei na mesa, massageei minhas costas, minha bunda, cada músculo, massageei minha barriga. Sem me tocar. A mesa me massageava, me acariciava. A mesa de maneira onde eu esperava o Dom.
Sentei-me na mesa, cansada da massagem. Relaxada, relapsa, esqueci-me do Dom. Logo, ouvi a porta se abrindo. Mas ela estava realmente se abrindo, se abrindo assim, ela mesma: ninguém entrou. Senti um vento sublime, um som de saxofone, um som de flauta-doce e um som de tilintar de taças. Tim-tim: abri as pernas e deixei o vento me molhar. A porta nunca bateu. O dom nunca chegou. E eu... Eu sei lá. Devo ainda estar na madeira esperando. Tim-tim.

quarta-feira, 19 de março de 2008

As traças

O sutiã dela era de cor chocolate
Sem, sem-graça, bem assim
Cor de chocolate, cor-da-pele: cadê a graça?
Cadê a raça, chocolate não: cor maior, cadê?

A raça se mostra pelo sutiã, disse eu
Ela riu-se e tirou o sutiã: sem bojo
Sem, sem graça: ela espera que eu faça
Cosquinhas na barriga cor de chocolate

Chocolate sem cor, leitoso:
Há de ter traça, sutiã velho, traçado sem graça
Traça e boca: cor de chocolate
sutiã cor-da-pele: chocolate claro, inaçucarado

O sutiã dela não tinha bojo
Perdi meu mojo, ela o dela, sem graça
Sem, sem açúcar: cristal orgânico
Eram os seus olhos assim.

Seus olhos eram de cristal orgânico
Achei graça.

(E saudade...)